08 fevereiro, 2012

Real


Já andei por muitos lugares.
Já estive com muitas pessoas.
Num instante estou lá, noutro estou cá.
Solto, prendo.
Sou mil, sou uma.
Já fui pássaro, anjo, má...
Já imaginei igualdade, santidade, felicidade, outra idade...
Já fiz filmes, escrevi livros.
Já ganhei o prêmio Nobel.
Já dei entrevistas para o Jô Soares.
Já viajei o mundo, já estive nas estrelas, brinquei na lua.
Já vesti, usei Armani, Vogue, Victor Hugo.
Já pilotei avião, dirigi caminhão, Ferrari.
BUM! Que susto!
Acordei, voltei a lavar o chão, mas com muita imaginação.




O banho

O banho

          

            Nestes dias de calor intenso, sempre me vem à cabeça um episódio que ocorreu quando eu ainda era criança. Eu e meu irmão Marcelo sempre fomos grandes companheiros de aventuras.

            Certa vez, nosso avô paterno fora passar alguns dias conosco. E mesmo no verão de 36/38 graus, nosso avô com seus 85 anos, senil de idade e com um jeito de viver bem particular, não se deixava levar pelos argumentos dos outros. 

 Fumava cachimbo e o odor misturava-se com  a falta de banho e passava dias assim, sem que ninguém o convencesse.

  Embora fosse um homem espirituoso, de bom papo, contava histórias de pescador e de assombração, não gostava de ducha, dizia que não tinha feito nada que necessitasse de chuveiro. Vez ou outra, em ocasiões espaciais tomava um banho rápido, fora isso lavava os pés toda a semana.

  Gostávamos de sua companhia, mas o odor atrapalhava nosso convívio.

Numa tarde de sol cáustico, ele sentado no jardim com o tal cachimbo, e eu e o Marcelo ali, sujeitos aos odores. Foi então que minha cabeça brilhante teve uma ideia: 

            – Vamos dar um banho no vovô?

Meu irmão não pensou duas vezes, correu pegou sabonete, xampu, toalha. E ali mesmo, de mangueira, começamos o trabalho. Tiramos sua camisa de mangas longas e o deixamos com uma camiseta que ele usava por baixo.

Começamos logo de cara pela cabeça, como quem rega uma planta sensível começamos devagar, mas logo fomos abrindo mais e mais a torneira e entre risos e esfregação a água escorria encardida, fria. Vovô tremia brrr brrr...

Lavamos até o cachimbo. O pobre não falava, somente balbuciava e tremia e tremia. Meu irmão teve a delicadeza de pedir licença e lavar as partes baixas. Os pés sobraram para mim. Usei pedra-pomes e ralei tanto aqueles pés que, depois, parecia bumbum de bebê.

Trabalho completo: penteamos o cabelo ralo, cortamos as unhas, passamos talco e passei um brilho em seus lábios, que não sei o porquê estava meio roxo. Tão logo o avozinho começou a ter um chilique, foi caindo de banda. Chamamos minha mãe aos berros, que não acreditava na cena.

 

Conclusão: Nosso avô teve uma pneumonia e ficou uma semana internado (o que ameniza um pouco minha culpa: ele foi para  cheiroso para o hospital). E quanto a nós? Bem, deixa pra lá! 


Hoje em dia meu avô não existe mais, nem o jardim, somente a lembrança e a saudade da pessoa maravilhosa e das nossas peripécias.




05 fevereiro, 2012

Faces

Verdade seja dita, passamos tanto tempo com máscaras que quando é preciso ser verdadeiro não sabemos a face que precisamos usar. 
Talvez, a hora certa seja em frente ao espelho, quando nos despir de toda mania de grandeza e de achar que somos inacabáveis. Sim, um dia somos jovens, atrevidos, no outro somos o agora, sem mais nem menos passamos para outra linha. 
Vemos a juventude passando por nós e na ansiedade de acompanhar, passamos o caricato, não nosso, mas de alguém que se esquece de tirar a máscara. 
Quem sabe podemos aceitar a mudança de cada ano, de cada frisado. Talvez haja necessidade de coragem, muita coragem para perceber o poder de cada tempo, de maturidade.  
Verdades, mentiras. 
O que realmente precisamos é nos vestir de nós mesmos, em cada idade. 


Foto: divulgação internet

03 fevereiro, 2012

Segredo


O rio abaixo baixou águas em segredo.
Sequei com sol o solo de minhas vestes.
Tão preocupante.
Tão rasante.
Tão quente.
Calor, pavor, favor.
Não sossega mesmo na sombra.
Não refresca o pescoço.
Adormeço, esqueço.
Do rio que chorou.
Do vale verde que acabou.
Da menina que sonhou.
Resto, restou o segredo.
Meus segredos não digo.
Não necessitam de ecos.
Guardam-se como águas.
Que escapam pelas mãos.
Apenas vão, sem nada dizer.


30 janeiro, 2012

Mente




Sentado ausente.
Depende, demente.
Crente que sente.
Esperança nascente.
O que vê aridamente.
É o sol ardente.
Corrente na gente.
Impedindo a semente.
Preciso quem me alimente.
Docemente, envolvente.
Preciso quem me encante.
De repente, no presente.
Serra a corrente.
Espalha a semente.
Fica sorridente.
Procura o ausente.
Chora com o poente.
Crê no presente.
Sente, sente...
Entre, ente, sente.
Mente.


Segue e surpreende. (Érica)




Pontas


Passei pela rua sem nada ver.
Ando em pontas, em agulhas.
Não vejo estrelas, não vejo ninguém.
Estou sem eu, estou cava.
Estou farta, não busco nada.
Não quero palavras vazias.
Não quero barulho.
Não quero nada para mim.
Se tiver que ser, só me quero volta.
Eu, como sou, ou como fui.
Se não der para ser assim.
Deixe-me apenas dormir.
Cansei de pisar, cansei.
Suas pontas feriram meus pés e coração.

26 janeiro, 2012

Vela


Vela acesa,
que foge do vento,
acende meu eu,
Clama, chama.
Vela acesa mobiliza
os olhos, o breu.
Vela acesa
faz lampejo como
o beijo.
Vela acesa vela e
chora.
Vela acesa traduz com 
sua luz minha dor.
Quieta, vive.
Quieta, brilha.
Quieta, cristaliza.
Quieta, apaga.
Quieta, quieta 
Morre.

Foto: Izabel Demarchi

24 janeiro, 2012

De vez em quando

De vez em quando ando descalço e acabo sentindo dor pelas pisadas em terrenos difíceis.
De vez em quando me calço de pés confiantes.
De vez em quando sou tanta coragem.
De vez em quando me deixo leve como uma folha ao vento.
De vez em quando me esvazio de todo pecado, como flor  nascendo na terra árida.
De vez em quando desacredito que exista tanta maldade.
De vez em quando planto espera em mim, acredito tanto que nasce uma árvore gigante chamada bondade.
De vez em quando sou criança, confiança.
De vez em quando deposito o meu bem em outro bem.
De vez em quando sonho um sonho novo.
De vez em quando acordo me decepciono e choro.
De vez em quando morro para alguém.
De vez em quando alguém morre para mim.
De vez em quando fujo de mim.