17 setembro, 2012
14 setembro, 2012
Geladeira
Já ultrapassei os limites do que sempre
acreditei, fingindo que nunca me importei.
Contei até os minutos para te ver,
mesmo querendo te esquecer.
Já listei os seus defeitos na porta
da geladeira.
Já fiz de conta que sou a própria geladeira.
Beijei os seus beijos de olhos
abertos,
escondendo meus medos incertos.
Já morri várias vezes de ciúmes.
Outras vezes criei vaga-lumes,
Pensando que assim brilharia em ti
e na verdade enganei a mim.
Mas o que fazer quando o
coração
é mais forte que a razão?
Ah! Um dia aprendo a inversão
e lhe trocarei...
Por uma nova geladeira.
06 setembro, 2012
Amante - Contribuição para Corrente Literária -
Amante
Como flor que entorta e torta ofereci, prestei, dei...
Enroscada em teu corpo tão presente no meu.
Tão diferente do que imaginei.
Não quero sair de ti e ficando assim alagada, suada...
Ah! Quero viver, quero viver.
Ah! Eu que não sabia que sentia, que podia...
Ah! Que diferença faz fazer...
Fazer o amor acontecer e largada no teu jardim,
Faço-me flor, esperando o amor,
Esperando o teu mel escorrer.
Conduzo, induzo; faça-me flor, faça-me amor.
Você me tem como sou, sem inventar, sem tirar...
Somente sou.
Tal como agora, tal como sempre.
De braços dados com a promessa do momento,
Sem pensar no antes, no depois.
Sou o que você imagina.
Existo agora, nesse exato momento, e de tanto sentir,
Ficarei assim,
Sempre.
Sucessivamente é todo do presente, no
tempo.
Não quero sair desse instante, quero
lhe ser constante, bastante.
Quero ser sempre amante.
05 setembro, 2012
O tempo que carrego
O Tempo que carrego não é meu
E até pouco tempo tudo era feliz
De uma hora para outra o pouco
Ficou muito pouco ou louco
Sendo grande assim...
Feliz era o tempo até aqui
De uma hora pra outra hora
Parou na hora
Em que eu mais quis.
Na hora que mais senti
O sentimento esvaziou-se
Como abstrato nato
Fez-se dono de mim.
Mas, nem pense...
Não sou de desistir.
01 setembro, 2012
Aproveite
Aproveite para colocar as flores de
molho.
Para arrumar a casa, organizar coisas
que estão espalhadas.
Aproveite para enfeitar os cabelos,
pintar as unhas.
Aproveite para ler, escrever, sonhar.
Aproveite para cultivar a saudade e
acrescentar mais amor, mais sentimento bom dentro de sua alma, dentro do seu
coração.
Aproveite para ser sua maior
companhia.
Aproveite para contar os dias e com
eles diminuir o tempo.
Aproveite para observar as estrelas,
a lua.
Aproveite para ver a beleza que
existe dentro e fora de ti.
Aproveite para chorar a qualquer
hora, lugar e saber que só os que amam não perdem tempo.
Aproveite do meu amor, que é todo
seu.
28 agosto, 2012
Medo de altura
Medo de altura e pavor de macarrão
Lembro-me
de quando eu tinha quatro anos, juntamente com meu irmão gêmeo e mais dois
irmãos mais novos (sim, éramos uma “escadinha”). Nossos pais estavam com
dificuldades financeiras. Minha mãe, que nunca fugiu à luta, começou a trabalhar
fora, e nos deixou com uma moça chamada Generosa (é incrível como me lembro da
fisionomia dela, principalmente dos olhos). Assim, ficou acertado que a prioridade era o
nosso cuidado, em especial com nossa alimentação, e, se desse tempo, ela faria
o resto do serviço em casa.
Meus pais saíam de casa às sete e
trinta; o mesmo horário que ela chegava, e, a partir daquele horário, o alvoroço começava logo cedo com banhos, roupas limpas e
também... Bom, e também ela tirava a mesa do café da manhã, colocando cada um de nós
sentados em uma cadeira em cima da mesa, amarrados pela cintura para que não
caíssemos. O único que ficava no berço era o meu irmão mais novo.
A princípio eu achava o “máximo”, não
que eu soubesse o que significava esse tal máximo, mas como sempre fui uma
mente devaneadora, ficava lá, amarrada, e assim prosseguiam os dias, as semanas.
Parece coisa de pesadelo, mas foi
muito real e até bom nas primeiras horas, eu e meus irmãos brincávamos de
ônibus, trenzinho, avião, passarinho. Usávamos a imaginação, mas a criatividade
cessou. Enquanto isso, ela trabalhava na
limpeza, realizada todos os dias. De vez em quando, ela perguntava quem queria
ir ao banheiro e, como era de se esperar, passei a querer ir toda a hora.
Na hora do almoço ela preparava,
quase sempre, macarrão, que era servido em copos, um para cada um. Claro que
podíamos repetir, e então fazíamos com gosto pela falta de não ter o que fazer.
Quando se aproximava o horário de minha mãe chegar ela nos tirava das alturas e
nos dava pirulitos. Essa era a melhor hora do dia. Minha mãe chegava e
encontrava tudo impecavelmente limpo, organizado. O que muito agradava mamãe.
Os dias foram passando e fomos
cansando, algumas vezes chorávamos, noutras até dormíamos ali mesmo, feitos “bichos
em árvores”. Como sempre a comida, digo o macarrão, era servido em copos, tipo requeijão.
Depois que terminávamos o “maravilhoso
almoço”, ela nos servia “Q-suco”, doce demais, no mesmo copo para não sujar outro.
Uma vez fiz greve de fome, sem saber
o que era greve, mas fiz por estar enjoada daquele macarrão esbranquiçado. É claro
que eu e meus irmãos perdemos peso. Fazíamos um “campeonato” de quem chorava
mais. Quase sempre dava empate.
A fraqueza que ficávamos dava a ela
mais tempo para “faxinar”. Ficávamos ali, pendurados, entregues. Passei a ter
medo de olhar para o chão, meu medo de cair era tanto que a noite eu tinha
pesadelos horríveis.
Minha mãe começou a nos instigar, e
em nossa linguagem de criança, dizíamos que não queríamos mais brincar no alto
da cadeira.
Depois de um tempo, como de costume, quando
ouvíamos o portão se abrindo com a chegada da Generosa (todos nós
começávamos a chorar, eu me agarrava em mamãe pedindo para ela ficar em casa
conosco, porque não queria mais ficar lá em cima, apontando para mesa). O
Daniel, meu irmão polaquinho, ficava vermelho feito sangue.
Mamãe nos abençoava e saia com ar de
tristeza. E assim, começava de novo a
nossa desventura nos ares.
Hoje em dia, quando ouço a palavra
generosa (que significa: pessoa capaz de deixar de lado os seus
próprios interesses para ajudar outra pessoa) me dá um acesso de riso.
Em uma tarde quente com o cheiro forte de cera que ela havia passado no chão, acabamos dormindo e acordamos com o grito de mamãe, que chegou mais cedo.
Nunca vou me esquecer da bofetada que mamãe deu em Generosa. Foi um dia diferente,
não sei de onde mamãe tirou tanta força, mas acabou amarrando a dita cuja na
cadeira em cima da mesa e a polícia foi chamada.
O que ficou disso tudo? Medo, medo de
altura e nojo de macarrão branco, além de uma baita anemia.
Bem! O tormento mudara, mas não acabara.
Pois, passamos frequentar a creche. Era fila para tudo: ir ao banheiro; o
horário do banho começava às 16 horas, numa fila interminável, quando
finalmente chegava a minha vez, naquela banheira gigante com três meninas, numa
água fria e suja (confesso que muitas vezes fiz xixi), não por vontade, mas por
falta de controle daquela situação insana.
Quanto à comida. Adivinha? Macarrão!
Mas era variado, um dia com abobrinha, outro chuchu. Para beber: Q-Suco, mas
não era tão doce.
21 agosto, 2012
Esquecendo
Esquecendo
O dia triste
em que percebi sua ausência, não a ausência física, mas ausência do seu eu.
Fiz-me de observador crítico demais e imaginei estar
imaginando coisas. Afinal você só tem sessenta e cinco anos, de muita
saúde anatômica. Mero engano, mero desespero para quem sempre lhe teve o mais
alto grau de admiração pela integridade e pela inteligência. Seu diagnóstico
foi rápido, certeiro: Alzheimer.
Passamos a lhe cuidar como se cuida de uma criança
pequena, tirando os perigos visíveis e esquecemo-nos dos invisíveis. Daqueles
que uma alma não sabe o próprio nome, idade, cidade... E o deixamos ir, não
porque queríamos essa partida, mas pela falta de como lhe trazer de volta para
casa e para as coisas básicas.
O seu básico passou a ser: olhar vazio; tarefas
feitas pela metade, como passar manteiga na maçã, abrir e não fechar a
torneira, vestir casaco de lã em pleno verão, garfo para tomar sopa, livro de
ponta cabeça e tantas outras coisas que não faria sentindo pra quem te viu pleno,
ativo, vivo.
Passei a pesquisar, a querer entender e me deparei com o nada, não há o que fazer para lhe trazer para a realidade, para a verdade. E, de verdade, não sei o que é verdade, onde tudo parece ser uma mentira muito bem contada que você não mais me vê, não mais me entende. Eu queria me forçar a acreditar que era apenas uma fase ou um pesadelo longo e a lonjura se prolongou na mais simples ocupação dos dias.
De repente uma explosão de histórias contadas por ti, como se fosse acontecida a pouco e, no entanto, eu nem era nascido, parece que sua vida do passado se passava na TV de tão clara, no entanto, o agora é breu, neutro. E vejo que a lógica não escolhe o tempo certo, apenas se passa como se escondesse de alguma coisa, talvez seja como esquecer que a morte existe, talvez seja como querer voar e não ter asas, talvez seja não sentir ou sentir e não saber descrever. Talvez seja recomeçar de onde se foi realmente feliz.
Vai entender o que essa perda de
neurônios.
Se pelos menos eu pudesse ter percebido antes a
forma insidiosa, em que você não se lembrava das chaves da porta, da hora do
futebol, do dia do meu aniversário... Se eu tivesse prestado mais atenção
nesses pequenos detalhes!
Tão triste como não perceber é saber que de nada
adiantaria, pois o doutor me explicou que os emaranhados
neurofibrilares aumentam
como nuvens e nada podemos fazer.
Passei a usar emaranhados em quase tudo do meu dia a
dia; emaranhados de trabalho, de contas, de medo, de impotência.
Deu-me um
click, já pensou se a causa desse mal é isso: um emaranhado de coisas não
resolvidas e o resultado final são a perda de neurônios, perda de sentidos. Tá!
Vaguei, viajei, mas o que pensar?! Se para ele passei a ser o
jardineiro. Passei ser o capitão de um barco à deriva, onde os marujos pulam no
mar com medo da tempestade. Passei ser estrangeiro no seu/meu país. Passei ser
o pai do meu pai.
Um dia após o outro e nem mais o passado ele vê, agora inerte, mais isolado, mais longe. Não sei o que pensa, se é que pensa; não sei o que sente, se é que sente. Quanto a mim, penso que morrer é isso, ir esquecendo, esquecendo até fechar os olhos de vez.
Mas do que mesmo estamos falando?
16 agosto, 2012
Por que tudo que é bom dura pouco?
Por
que tudo que é bom dura pouco? Talvez para que quando aconteça, seja mais
intenso, mais usado, mais cuidado. Coisas longas enjoam, engordam, cansam e
ainda desmontam nossa capacidade de ir buscar, de fazer, de ansiar.
Sabe
aquela veleidade de esperar o esperado ou a surpresa boa do momento menos
inesperado? É isso, deixar-se provar do muito bom, do pouco e ter a
certeza que teremos de novo, outra vez, sempre... Afinal, o melhor da "festa"
é esperar por ela.
Certas
esperas são como ser feliz antes dos acontecimentos e muito mais quando
acontecem, mesmo que durem pouco, mas que se repitam muitas vezes, para que
façam o pouco durar a vida inteira.
Sabe
aquela sede intensa? Quando se bebe a água o corpo reconhece a saciedade, tão
curta, mas tão prazerosa!








